Um dia no CRE e outro no HU
Acabo de ouvir o jornalista Alexandre Garcia dizer que “infelizmente, nada vai melhorar se nos omitirmos” . E ele estava falando de um hospital público do Paraná.
Betinho também dizia: Só a participação cidadã é capaz de mudar o país
E é assim mesmo. Nosso dever é denunciar, reclamar, insistir incansavelmente nessa trajetória histórica da cidadania. Desde as primeiras reuniões em praça pública, na Grécia, somos nós, os cidadãos (moradores das cidades) que temos que “resolver” nossas questões.
Lembrando o longo percurso da cidadania, a possibilidade de tornar-se cidadão foi uma conquista que levou séculos e esteve ligada a diversos interesses históricos. A partir do século 18 e com o fim do Absolutismo, começa a nascer um novo tipo de Estado: O Estado de Direito, onde todos são iguais perante a lei.
Mas, a luta continua. Ser cidadão não é só ter uma certidão de nascimento. É ajudar a criar novas realidades. É ser agente de mudança. É estar imbuído em construir um mundo ecologicamente correto, economicamente viável, socialmente justo e culturalmente aceito.
É também construir consciências.
É tarefa que não termina. Não é como um dever de casa, onde faço a minha parte, apresento e pronto, acabou. Enquanto seres inacabados que somos, sempre estaremos buscando, descobrindo, criando e tomando consciência mais ampla dos direitos.
Então, vamos fazer a nossa parte .
Embora já possamos constatar a diferença do perfil do profissional médico, tanto no atendimento no PAC como no HU, ainda falta bastante para que sejamos dignamente atendidos pelo Setor Público, que existe para nos atender. Sua missão - a razão de sua existência – é prestar um serviço a nós, cidadãos. Nós, cidadãos, somos o foco.
Contarei duas histórias, uma vivida no HU (Hospital Universitário) e a outra no CRE (Centro Regional de Especialidades).
Acompanhei uma pessoa idosa para consulta no HU. É bom comentar que o atendimento dos médicos residentes tem sido impecável. Mas, para ser atendido, há que ser encaminhado pelo UBA (Unidade Básica de Atendimento) e o agendamento pode demorar bastante. Mas, chegado o dia agendado (um dia de fevereiro) , rumamos ao HU, às 7 da manhã, para poder ser um dos primeiros. Fomos atendidos às 11:30 h e o médico achou melhor pedir outra endoscopia. Nova fila, para agendamento do exame. Chegada a vez, o idoso mostra à atendente o pedido do médico e ela, consultando o Sistema, pergunta: “Por que o senhor quer fazer outra endoscopia?” (o paciente havia feito o primeiro exame em dezembro). Continua: “O senhor não veio em dezembro? Por que?” E eu intervenho, dizendo: “Ele veio, sim, mas o médico pediu novo exame.” Ela pergunta: “Mas por que? “ E aí dizemos, juntos, que não poderíamos responder, que somente o médico deveria saber o motivo. Ela considerou a resposta “mal-educada” e reclamou da “nossa grosseria”.
Constrangidos diante desse tratamento, resolvi pedir para falar com a encarregada do setor. Contei-lhe o sucedido e ela respondeu, de forma autoritária e grosseira: “Vocês sabem quanto a estagiária ganha para atender esse monte de gente? Seiscentos reais! “
Calei-me, claro, diante de tamanho despreparo.
Mas, insistindo em minha condição de cidadã civilizada e sonhadora, tentei falar com o Prof. Pompeu. “Qual é o assunto?”, perguntou-nos outro atendente. “Reclamação”, dizemos. “Ligue para a Ouvidoria”, informou.
Chegando em casa, tentei comunicar-me por telefone, mas não foi possível. Consegui o e-mail da Ouvidora e fiz um relato sucinto, acompanhado de elogios aos dirigentes pelas grandes mudanças havidas no HU.
Senti-me aliviada por ter colaborado com a administração do Hospital, pois se estivesse no lugar do administrador, ficaria agradecida em poder melhorar o atendimento, preparar os estagiários para esse mercado tão competitivo, que, aliás, é tarefa implícita da empresa que contrata o estagiário.
Nunca recebi nenhum retorno dessa minha contribuição cidadã. Será que se ofenderam também?
****
No CRE
Depois de aguardar muito tempo para ter um agendamento com médico cardiovascular, partimos para a esperada consulta. Saimos às 6 da manhã e ao chegar no CRE vimos que já era tarde, pois havia muita gente aguardando o mesmo profissional - idosos que já haviam estado na semana anterior e o médico não tinha podido atendê-los. Depois de verificar o documento pessoal e o Cartão do SUS, a atendente pede a folha de encaminhamento do Posto. O idoso não a encontra e apesar de constar na agenda o nome do paciente, a atendente diz: “Se o doutor estiver de mal-humor, ele não atende sem encaminhamento.” Enquanto esperamos, vamos pedindo a Deus que o doutor esteja de bom humor. São 8 horas e o doutor não chegou. Às 9 h, uma das atendentes (essas, sim, amáveis) avisou que o doutor estava fazendo uma cirurgia de emergência. Os idosos que haviam estado na semana anterior falaram logo: “OUTRA VEZ?” Eram 10:30 h e resolvemos não arriscar. Voltamos para casa, pedindo a Deus que o problema de saúde se resolva pela fé.
****
Uma outra observaçãozinha: Contando essa história do CRE a algumas pessoas, disse-me uma ex-secretária de médico que seu antigo chefe gostava muito de videogame e internet e pedia que ela avisasse os pacientes que ele estava em cirurgia urgente.
Izabel Dietrich de Vergara
Simples cidadã
segunda-feira, 17 de maio de 2010
sexta-feira, 14 de maio de 2010
Alegrias da velhice, João Ubaldo Ribeiro
Até ficar velho, operação antigamente simples e natural, resumível na venerável sentença 'quem não morre fica velho', está se tornando cada vez mais complicado, a ponto de, receio eu, causar algumas crises de identidade nesse cada vez mais vasto contingente da população. Acho que vou sugerir a criação, nas faculdades de Filosofia, de um curso de epistemologia da velhice, porque a confusão, pelo menos entre os menos ilustrados, como eu, aumenta a cada dia. Talvez até os próprios geriatras se beneficiem desse estudo, porque tenho praticamente certeza de que, entre eles, há divergências sobre o conceito de 'velho'.
A mim, confesso, já enche um pouco o saco esse negócio. Começou, se não me falham os rateantes neurônios, com essa conversa de terceira idade, inventada pelos americanos, que são muito bons de eufemismo, como testemunha a exemplar frase 'lide com preconceito extremo', que, dizem, a CIA usava quando ordenava um assassinato. Passou a não pegar bem chamar velho de velho mesmo e agora a velharada é agredida com designações tais como 'boa idade', 'melhor idade', 'feliz idade' e outras qualificações ofensivas. E, dentro dessas categorias, já me contaram que há subcategorias. Ninguém mais é velho, fica até feio o sujeito hoje em dia dizer que é velho.
De minha parte, reivindico apenas alguns direitos, entre os quais devo ressaltar não ser obrigado a entrar na fila dos idosos dos bancos. Aliás, a não entrar em fila de idoso nenhum, a não ser que, na hora, o que raramente sucede, isso apresente alguma vantagem. Fila de banco é uma furada séria, porque não só alguns de nossa variegada turma ou são surdos ou requerem primeiros socorros se começam a lhes explicar o que significa 'o sistema caiu', por exemplo. Me contaram que, numa agência aqui do bairro, uma senhora teve um pitaco, porque pensou que isso queria dizer que o banco falira e suas economias de viúva tinham ido juntar-se à vaca no brejo.
Imagino que, pelo tom acima, que talvez alguém entre vocês tenha antecipado que vou lembrar outra vez o que Jorge Amado, entre as incontáveis peças de sabedoria que me presenteou ao longo de nossa convivência de décadas, me disse a respeito da velhice. Aliás, vou dar um furo de reportagem - sou do tempo do furo de reportagem, espero ser cumprimentado pela direção do jornal. Jorge não me falou somente uma vez sobre a velhice, embora não fosse seu assunto favorito. Há muitas outras frases, mas não se destaca entre elas somente a que divulguei aqui: 'Compadre, já me falaram muito das alegrias da velhice, mas ainda não me apresentaram a nenhuma.' Teve outra, saquem agora o tremendo furo: 'Compadre, não importa o que lhe digam, a gente não aprende nada com a velhice; a única coisa que a gente aprende com a velhice é que velhice é uma merda.'
Entrevendo os setentinha a média distância, temo que, como tudo mais que o compadre me ensinou, isso tudo seja a impiedosíssima verdade. Pode ser que, a depender da categoria empregada, eu não seja velho (cartas sobre o que é ser velho, principalmente as escritas por velhos como eu, que vão dizer que a velhice está na mente etc., etc., para o editor, por caridade), mas, outro dia, não lembro onde, fui descer dois degraus do palco aonde havia antes subido e quatro jovens pressurosas me apararam as costas e me seguraram os cotovelos como se eu fosse um hipopótamo paraplégico tentando um salto ornamental. Eu talvez pareça um hipopótamo paraplégico, mas sou no máximo uma anta com artrite e ainda tenho lepidez bastante para descer um meio-fio com relativa confiança. (A velhice não está na mente, está nas juntas.)
Quanto ao aspecto didático da velhice, também parece confirmar-se o que me falou meu amigo. A vida pode ensinar alguma coisa e geralmente ensina, embora quase sempre a gente aprenda tarde demais - besteira, esse negócio de 'nunca é tarde demais', costuma ser tarde demais mesmo. Mas a velhice mesmo só ensina o que ele disse. Certo, talvez eu não seja velho o suficiente para esta confirmação, mas os indícios são claros. Calçar meias, para citar um caso, já me parece uma modalidade olímpica e nem me passa pela cabeça alcançar um centésimo do índice. Um dos meus joelhos volta e meia faz um barulho alarmante, dói uma besteirinha e depois volta ao silêncio enigmático com que minhas noites são atormentadas por visões de ossinhos se esfarelando, enquanto eu vou à banca de jornal. E por aí vai, o pudor me cala.
Mas Jorge não testemunhou o que hoje testemunho. As alegrias da velhice, afinal, não são meramente individuais. E não é que agora vejo o Brasil a transformar-se mesmo num grande canteiro de obras? Falam até que o Bolsa Família será gradualmente extinto, pois o governo vai chamar cada beneficiário e dar a ele um emprego. Claro, não há empregos nem para os que estão fora do BF, mas também não se pode querer tudo. E as coletividades que agora verão instalar-se a concórdia e a prosperidade, através dos Territórios da Cidadania? Até mesmo as eleições municipais, freqüentemente causa de rancor e hostilidade, deverão ser bem mais tranqüilas. E, finalmente, o Big Brother Brazil deixou de ocupar o primeiro lugar entre as contribuições do Brasil para o progresso da Humanidade neste século. Agora, através da visão e da generosidade do Nosso Guia, o Brasil deu um passo muito à frente de Orwell e até do BBB. Não disse ele que d. Dilma Roussef é a mãe do PAC? O PAC não é o nascimento de um novo Brasil, para o povo e não para a Zelite? Então, além do Nosso Guia, temos a nossa Big Mother. Perfeito, até do ponto de vista psicanalítico. A única desvantagem sobre o BBB é que eles não deixam a gente ver o que eles fazem, mesmo entrando compulsoriamente para o pay-per-view.
A mim, confesso, já enche um pouco o saco esse negócio. Começou, se não me falham os rateantes neurônios, com essa conversa de terceira idade, inventada pelos americanos, que são muito bons de eufemismo, como testemunha a exemplar frase 'lide com preconceito extremo', que, dizem, a CIA usava quando ordenava um assassinato. Passou a não pegar bem chamar velho de velho mesmo e agora a velharada é agredida com designações tais como 'boa idade', 'melhor idade', 'feliz idade' e outras qualificações ofensivas. E, dentro dessas categorias, já me contaram que há subcategorias. Ninguém mais é velho, fica até feio o sujeito hoje em dia dizer que é velho.
De minha parte, reivindico apenas alguns direitos, entre os quais devo ressaltar não ser obrigado a entrar na fila dos idosos dos bancos. Aliás, a não entrar em fila de idoso nenhum, a não ser que, na hora, o que raramente sucede, isso apresente alguma vantagem. Fila de banco é uma furada séria, porque não só alguns de nossa variegada turma ou são surdos ou requerem primeiros socorros se começam a lhes explicar o que significa 'o sistema caiu', por exemplo. Me contaram que, numa agência aqui do bairro, uma senhora teve um pitaco, porque pensou que isso queria dizer que o banco falira e suas economias de viúva tinham ido juntar-se à vaca no brejo.
Imagino que, pelo tom acima, que talvez alguém entre vocês tenha antecipado que vou lembrar outra vez o que Jorge Amado, entre as incontáveis peças de sabedoria que me presenteou ao longo de nossa convivência de décadas, me disse a respeito da velhice. Aliás, vou dar um furo de reportagem - sou do tempo do furo de reportagem, espero ser cumprimentado pela direção do jornal. Jorge não me falou somente uma vez sobre a velhice, embora não fosse seu assunto favorito. Há muitas outras frases, mas não se destaca entre elas somente a que divulguei aqui: 'Compadre, já me falaram muito das alegrias da velhice, mas ainda não me apresentaram a nenhuma.' Teve outra, saquem agora o tremendo furo: 'Compadre, não importa o que lhe digam, a gente não aprende nada com a velhice; a única coisa que a gente aprende com a velhice é que velhice é uma merda.'
Entrevendo os setentinha a média distância, temo que, como tudo mais que o compadre me ensinou, isso tudo seja a impiedosíssima verdade. Pode ser que, a depender da categoria empregada, eu não seja velho (cartas sobre o que é ser velho, principalmente as escritas por velhos como eu, que vão dizer que a velhice está na mente etc., etc., para o editor, por caridade), mas, outro dia, não lembro onde, fui descer dois degraus do palco aonde havia antes subido e quatro jovens pressurosas me apararam as costas e me seguraram os cotovelos como se eu fosse um hipopótamo paraplégico tentando um salto ornamental. Eu talvez pareça um hipopótamo paraplégico, mas sou no máximo uma anta com artrite e ainda tenho lepidez bastante para descer um meio-fio com relativa confiança. (A velhice não está na mente, está nas juntas.)
Quanto ao aspecto didático da velhice, também parece confirmar-se o que me falou meu amigo. A vida pode ensinar alguma coisa e geralmente ensina, embora quase sempre a gente aprenda tarde demais - besteira, esse negócio de 'nunca é tarde demais', costuma ser tarde demais mesmo. Mas a velhice mesmo só ensina o que ele disse. Certo, talvez eu não seja velho o suficiente para esta confirmação, mas os indícios são claros. Calçar meias, para citar um caso, já me parece uma modalidade olímpica e nem me passa pela cabeça alcançar um centésimo do índice. Um dos meus joelhos volta e meia faz um barulho alarmante, dói uma besteirinha e depois volta ao silêncio enigmático com que minhas noites são atormentadas por visões de ossinhos se esfarelando, enquanto eu vou à banca de jornal. E por aí vai, o pudor me cala.
Mas Jorge não testemunhou o que hoje testemunho. As alegrias da velhice, afinal, não são meramente individuais. E não é que agora vejo o Brasil a transformar-se mesmo num grande canteiro de obras? Falam até que o Bolsa Família será gradualmente extinto, pois o governo vai chamar cada beneficiário e dar a ele um emprego. Claro, não há empregos nem para os que estão fora do BF, mas também não se pode querer tudo. E as coletividades que agora verão instalar-se a concórdia e a prosperidade, através dos Territórios da Cidadania? Até mesmo as eleições municipais, freqüentemente causa de rancor e hostilidade, deverão ser bem mais tranqüilas. E, finalmente, o Big Brother Brazil deixou de ocupar o primeiro lugar entre as contribuições do Brasil para o progresso da Humanidade neste século. Agora, através da visão e da generosidade do Nosso Guia, o Brasil deu um passo muito à frente de Orwell e até do BBB. Não disse ele que d. Dilma Roussef é a mãe do PAC? O PAC não é o nascimento de um novo Brasil, para o povo e não para a Zelite? Então, além do Nosso Guia, temos a nossa Big Mother. Perfeito, até do ponto de vista psicanalítico. A única desvantagem sobre o BBB é que eles não deixam a gente ver o que eles fazem, mesmo entrando compulsoriamente para o pay-per-view.
sexta-feira, 20 de março de 2009
Pátria Madrasta Vil
Premiada pela UNESCO, Clarice Zeitel, de 26 anos, estudante que termina faculdade de direito da UFRJ em julho, concorreu com outros 50 mil estudantes universitários. Ela acaba de voltar de Paris, onde recebeu um prêmio da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) por uma redação sobre 'Como vencer a pobreza e a desigualdade'
PÁTRIA MADRASTA VIL
Onde já se viu tanto excesso de falta? Abundância de inexistência. .. Exagero de escassez... Contraditórios? ?
Então aí está! O novo nome do nosso país! Não pode haver sinônimo melhor para BRASIL.
Porque o Brasil nada mais é do que o excesso de falta de caráter, a abundância de inexistência de solidariedade, o exagero de escassez de responsabilidade.
O Brasil nada mais é do que uma combinação mal engendrada - e friamente sistematizada - de contradições.
Há quem diga que 'dos filhos deste solo és mãe gentil.', mas eu digo que não é gentil e, muito menos, mãe. Pela definição que eu conheço de MÃE, o Brasil está mais para madrasta vil.
A minha mãe não 'tapa o sol com a peneira'. Não me daria, por exemplo, um lugar na universidade sem ter-me dado uma bela formação básica.
E mesmo há 200 anos atrás não me aboliria da escravidão se soubesse que me restaria a liberdade apenas para morrer de fome.
Porque a minha mãe não iria querer me enganar, iludir. Ela me daria um verdadeiro Pacote que fosse efetivo na resolução do problema, e que contivesse educação + liberdade + igualdade. Ela sabe que de nada me adianta ter educação pela metade, ou tê-la aprisionada pela falta de oportunidade, pela falta de escolha, acorrentada pela minha voz-nada-ativa. A minha mãe sabe que eu só vou crescer se a minha educação gerar liberdade e esta, por fim, igualdade. Uma segue a outra... Sem nenhuma contradição!
É disso que o Brasil precisa: mudanças estruturais, revolucionárias, que quebrem esse sistema-esquema social montado; mudanças que não sejam hipócritas, mudanças que transformem!
A mudança que nada muda é só mais uma contradição. Os governantes (às vezes) dão uns peixinhos, mas não ensinam a pescar.
E a educação libertadora entra aí. O povo está tão paralisado pela ignorância que não sabe a que tem direito. Não aprendeu o que é ser cidadão.
Porém, ainda nos falta um fator fundamental para o alcance da igualdade: nossa participação efetiva; as mudanças dentro do corpo burocrático do Estado não modificam a estrutura. As classes média e alta - tão confortavelmente situadas na pirâmide social - terão que fazer mais do que reclamar (o que só serve mesmo para aliviar nossa culpa)... Mas estão elas preparadas para isso?
Eu acredito profundamente que só uma revolução estrutural, feita de dentro pra fora e que não exclua nada nem ninguém de seus efeitos, possa acabar com a pobreza e desigualdade no Brasil.Afinal, de que serve um governo que não administra? De que serve uma mãe que não afaga? E, finalmente, de que serve um Homem que não se posiciona?
Talvez o sentido de nossa própria existência esteja ligado, justamente, a um posicionamento perante o mundo como um todo.
Sem egoísmo. Cada um por todos...
Algumas perguntas, quando auto-indagadas, se tornam elucidativas. Pergunte-se: quero ser pobre no Brasil? Filho de uma mãe gentil ou de uma madrasta vil? Ser tratado como cidadão ou excluído?
Como gente... Ou como bicho?
PÁTRIA MADRASTA VIL
Onde já se viu tanto excesso de falta? Abundância de inexistência. .. Exagero de escassez... Contraditórios? ?
Então aí está! O novo nome do nosso país! Não pode haver sinônimo melhor para BRASIL.
Porque o Brasil nada mais é do que o excesso de falta de caráter, a abundância de inexistência de solidariedade, o exagero de escassez de responsabilidade.
O Brasil nada mais é do que uma combinação mal engendrada - e friamente sistematizada - de contradições.
Há quem diga que 'dos filhos deste solo és mãe gentil.', mas eu digo que não é gentil e, muito menos, mãe. Pela definição que eu conheço de MÃE, o Brasil está mais para madrasta vil.
A minha mãe não 'tapa o sol com a peneira'. Não me daria, por exemplo, um lugar na universidade sem ter-me dado uma bela formação básica.
E mesmo há 200 anos atrás não me aboliria da escravidão se soubesse que me restaria a liberdade apenas para morrer de fome.
Porque a minha mãe não iria querer me enganar, iludir. Ela me daria um verdadeiro Pacote que fosse efetivo na resolução do problema, e que contivesse educação + liberdade + igualdade. Ela sabe que de nada me adianta ter educação pela metade, ou tê-la aprisionada pela falta de oportunidade, pela falta de escolha, acorrentada pela minha voz-nada-ativa. A minha mãe sabe que eu só vou crescer se a minha educação gerar liberdade e esta, por fim, igualdade. Uma segue a outra... Sem nenhuma contradição!
É disso que o Brasil precisa: mudanças estruturais, revolucionárias, que quebrem esse sistema-esquema social montado; mudanças que não sejam hipócritas, mudanças que transformem!
A mudança que nada muda é só mais uma contradição. Os governantes (às vezes) dão uns peixinhos, mas não ensinam a pescar.
E a educação libertadora entra aí. O povo está tão paralisado pela ignorância que não sabe a que tem direito. Não aprendeu o que é ser cidadão.
Porém, ainda nos falta um fator fundamental para o alcance da igualdade: nossa participação efetiva; as mudanças dentro do corpo burocrático do Estado não modificam a estrutura. As classes média e alta - tão confortavelmente situadas na pirâmide social - terão que fazer mais do que reclamar (o que só serve mesmo para aliviar nossa culpa)... Mas estão elas preparadas para isso?
Eu acredito profundamente que só uma revolução estrutural, feita de dentro pra fora e que não exclua nada nem ninguém de seus efeitos, possa acabar com a pobreza e desigualdade no Brasil.Afinal, de que serve um governo que não administra? De que serve uma mãe que não afaga? E, finalmente, de que serve um Homem que não se posiciona?
Talvez o sentido de nossa própria existência esteja ligado, justamente, a um posicionamento perante o mundo como um todo.
Sem egoísmo. Cada um por todos...
Algumas perguntas, quando auto-indagadas, se tornam elucidativas. Pergunte-se: quero ser pobre no Brasil? Filho de uma mãe gentil ou de uma madrasta vil? Ser tratado como cidadão ou excluído?
Como gente... Ou como bicho?
sexta-feira, 13 de março de 2009
A excoumunhão da vítima
A EXCOMUNHÃO DA VÍTIMA
Miguezim de Princesa
I
Peço à musa do improviso
Que me dê inspiração,
Ciência e sabedoria,
Inteligência e razão,
Peço que Deus que me proteja
Para falar de uma igreja
Que comete aberração.
II
Pelas fogueiras que arderam
No tempo da Inquisição,
Pelas mulheres queimadas
Sem apelo ou compaixão,
Pensava que o Vaticano
Tinha mudado de plano,
Abolido a excomunhão.
III
Mas o bispo Dom José,
Um homem conservador,
Tratou com impiedade
A vítima de um estuprador,
Massacrada e abusada,
Sofrida e violentada,
Sem futuro e sem amor.
IV
Depois que houve o estupro,
A menina engravidou.
Ela só tem nove anos,
A Justiça autorizou
Que a criança abortasse
Antes que a vida brotasse
Um fruto do desamor.
V
O aborto, já previsto
Na nossa legislação,
Teve o apoio declarado
Do ministro Temporão,
Que é médico bom e zeloso,
E mostrou ser corajoso
Ao enfrentar a questão.
VI
Além de excomungar
O ministro Temporão,
Dom José excomungou
Da menina, sem razão,
A mãe, a vó e a tia
E se brincar puniria
Até a quarta geração.
VII
É esquisito que a igreja,
Que tanto prega o perdão,
Resolva excomungar médicos
Que cumpriram sua missão
E num beco sem saída
Livraram uma pobre vida
Do fel da desilusão.
VIII
Mas o mundo está virado
E cheio de desatinos:
Missa virou presepada,
Tem dança até do pepino,
Padre que usa bermuda,
Deixando mulher buchuda
E bolindo com os meninos.
IX
Milhões morrendo de Aids:
É grande a devastação,
Mas a igreja acha bom
Furunfar sem proteção
E o padre prega na missa
Que camisinha na lingüiça
É uma coisa do Cão.
X
E esta quem me contou
Foi Lima do Camarão:
Dom José excomungou
A equipe de plantão,
A família da menina
E o ministro Temporão,
Mas para o estuprador,
Que por certo perdoou,
O arcebispo reservou
A vaga de sacristão.
Miguezim de Princesa
I
Peço à musa do improviso
Que me dê inspiração,
Ciência e sabedoria,
Inteligência e razão,
Peço que Deus que me proteja
Para falar de uma igreja
Que comete aberração.
II
Pelas fogueiras que arderam
No tempo da Inquisição,
Pelas mulheres queimadas
Sem apelo ou compaixão,
Pensava que o Vaticano
Tinha mudado de plano,
Abolido a excomunhão.
III
Mas o bispo Dom José,
Um homem conservador,
Tratou com impiedade
A vítima de um estuprador,
Massacrada e abusada,
Sofrida e violentada,
Sem futuro e sem amor.
IV
Depois que houve o estupro,
A menina engravidou.
Ela só tem nove anos,
A Justiça autorizou
Que a criança abortasse
Antes que a vida brotasse
Um fruto do desamor.
V
O aborto, já previsto
Na nossa legislação,
Teve o apoio declarado
Do ministro Temporão,
Que é médico bom e zeloso,
E mostrou ser corajoso
Ao enfrentar a questão.
VI
Além de excomungar
O ministro Temporão,
Dom José excomungou
Da menina, sem razão,
A mãe, a vó e a tia
E se brincar puniria
Até a quarta geração.
VII
É esquisito que a igreja,
Que tanto prega o perdão,
Resolva excomungar médicos
Que cumpriram sua missão
E num beco sem saída
Livraram uma pobre vida
Do fel da desilusão.
VIII
Mas o mundo está virado
E cheio de desatinos:
Missa virou presepada,
Tem dança até do pepino,
Padre que usa bermuda,
Deixando mulher buchuda
E bolindo com os meninos.
IX
Milhões morrendo de Aids:
É grande a devastação,
Mas a igreja acha bom
Furunfar sem proteção
E o padre prega na missa
Que camisinha na lingüiça
É uma coisa do Cão.
X
E esta quem me contou
Foi Lima do Camarão:
Dom José excomungou
A equipe de plantão,
A família da menina
E o ministro Temporão,
Mas para o estuprador,
Que por certo perdoou,
O arcebispo reservou
A vaga de sacristão.
quinta-feira, 27 de novembro de 2008
A BOLHA BRASILEIRA.
José vai à loja para comprar um carro.
Pedro, o lojista consegue financiamento para seus clientes na financeira GrandKoisa.
A GrandKoisa financia os carros para os clientes do lojista e repassa um "rebate" da taxa de juros cobrada, o que é bom para Pedro .
José gosta de um carro e aceita pagar R$ 450,00 por mês durante os próximos seis anos. À vista o carro custa R$ 16.000,00, financiado a operação será a seguinte: entrada de R$ 3.000,00 mais 72 x R$ 450,00 (R$ 32.400,00), total R$ 35.400,00.
Pedro quer vender o carro, pois ganha na venda e ganha no rebate da taxa de juros embutida no financiamento. A GrandKoisa quer financiar quantos carros puder, pois a sua mercadoria é DINHEIRO e com isso gerar uma CARTEIRA de recebíveis.
O Banco LostBank compra a carteira de recebíveis e coloca os títulos em seu Fundo de Investimento, o Fundo Del Poço.
Maria cliente do banco recebe um prospecto do fundo e pergunta a sua gerente sobre a aplicação. Boemia a gerente explica que a rentabilidade do fundo é muito boa e segura. Funciona mais ou menos assim: o banco compra títulos com garantia real da sua própria financeira, tudo muito legal e com auditoria. Esses títulos que são "garantidos" rendem para o banco uma taxa futura que depois de descontadas taxa de administração e outros custos da operação, garantem uma rentabilidade mensal superior a da caderneta de poupança.
A cliente Maria aplica R$ 16.000,00 no Fundo Del Poço, e chegando na empresa comenta com outros amigos que graças a sua amiga Boemia Gerente do LostBank aplicou no Fundo Del que tem rentabilidade muito superior a outras aplicações.
Várias pessoas procuram o banco e aplicam seus recursos, outros procuram a loja de carros do Pedro e compram carro financiado, a GrandKoisa financia muitos carros e gera muitos recebíveis que serão comprados pelo banco para compor a carteira do Fundo de Investimento. E assim a roda gira.
Dois anos depois vários clientes incluindo o seu Jose procuram Pedro em sua loja de veículos para negociar aquela compra de carro. Como perdeu o emprego e ainda restam 48 prestações de R$ 450,00 , (R$ 21.600,00 ) Jose fica desesperado pois não tem com o que pagar e o saldo devedor é muito superior ao valor atual do seu carro R$ 10.000,00.
O comerciante fala para os seus clientes que ele não tem nada a ver com isso e que o melhor a fazer é procurar a financeira.
José que é um dos clientes liga para a GrandKoisa e como já está com prestações em atraso é orientado a falar com a empresa de cobrança contratada pela financeira.
Surge mais um participante da operação, o escritório de advocacia Naum Quero Saber, ele é atendido por um assistente do escritório e fica estarrecido com a explicação; "Sr. Zé veja bem, o melhor a fazer é devolver o carro para a financeira, daí vamos colocar o carro a venda em um leilão, ele provavelmente será negociado por menos do que o seu valor de mercado. Depois descontamos os custos da operação, taxa do leiloeiro, despesas do escritório de advocacia e outras. No final das contas vamos abater o resultado do seu saldo devedor".
Meu Deus, exclama José, e em dinheiro o que vai dar isso?
A sua dívida está em R$ 21.600,00, fora taxas e correções, menos o valor aproximado da venda no leilão do seu carro por R$ 7.000,00, menos despesas, no final o senhor ainda deve ficar devendo uns R$ 15.000,00.
Olhando a sua volta Jose percebe que tem muita gente com senha na mão esperando para falar com alguém da empresa de cobrança. Lembra que na loja algumas pessoas estavam esperando para falar com Pedro.
Nessa altura o que já estava ruim fica ainda pior, a Financeira GrandKoisa percebe um grande aumento no número de inadimplentes e com a redução dos prazos de financiamento, está fazendo bem menos do que nos anos anteriores. O Fundo Del Poço observa um grande número de inadimplentes e não consegue substituir tantos títulos e sua carteira que estão com problemas.
A rentabilidade do fundo não é boa.
Os jornais estampam a notícia que o preço do carro usado esta caindo muito e rápido, os pátios das lojas estão cheios, as empresas de leilão estão a todo vapor, empresas de cobrança acionam os mecanismos de busca e apreensão, financeiras em campanha tentando caçar novos clientes.
Com a grande oferta de carro novo, carro usado e carros a preços baixos sendo leiloados, o preço tende a cair.
Os clientes do fundo começam a notar que a rentabilidade piorou e procuram explicações com a gerente Boemia, ela pede ajuda ao pessoal da área de investimentos do banco. A explicação é simples, compramos uma carteira de recebíveis, os títulos não estão sendo honrados e a substituição na carteira não acontece por falta de novos títulos, alguns cotistas estão sacando, os custos de taxa de administração e outros do fundo continuam os mesmos. A coisa tá feia.
Agora o prejuízo não é somente das montadoras, revendas, financeiras é também dos cotistas que aplicaram seus recursos nesses fundos de recebíveis com garantia de prestação de carro "usado".
Essa é a grande bolha brasileira, a recessão traz desemprego, o aperto monetário, a falta de crédito faz com que a economia não ande como nos áureos tempos, e com isso a inadimplência atinge índices jamais vistos.
Esperamos que esses acontecimentos nunca aconteçam, mas acontece que a trajetória que fizemos até o presente momento é de colisão, sinto muito.
Altemir C. Farinhas
José vai à loja para comprar um carro.
Pedro, o lojista consegue financiamento para seus clientes na financeira GrandKoisa.
A GrandKoisa financia os carros para os clientes do lojista e repassa um "rebate" da taxa de juros cobrada, o que é bom para Pedro .
José gosta de um carro e aceita pagar R$ 450,00 por mês durante os próximos seis anos. À vista o carro custa R$ 16.000,00, financiado a operação será a seguinte: entrada de R$ 3.000,00 mais 72 x R$ 450,00 (R$ 32.400,00), total R$ 35.400,00.
Pedro quer vender o carro, pois ganha na venda e ganha no rebate da taxa de juros embutida no financiamento. A GrandKoisa quer financiar quantos carros puder, pois a sua mercadoria é DINHEIRO e com isso gerar uma CARTEIRA de recebíveis.
O Banco LostBank compra a carteira de recebíveis e coloca os títulos em seu Fundo de Investimento, o Fundo Del Poço.
Maria cliente do banco recebe um prospecto do fundo e pergunta a sua gerente sobre a aplicação. Boemia a gerente explica que a rentabilidade do fundo é muito boa e segura. Funciona mais ou menos assim: o banco compra títulos com garantia real da sua própria financeira, tudo muito legal e com auditoria. Esses títulos que são "garantidos" rendem para o banco uma taxa futura que depois de descontadas taxa de administração e outros custos da operação, garantem uma rentabilidade mensal superior a da caderneta de poupança.
A cliente Maria aplica R$ 16.000,00 no Fundo Del Poço, e chegando na empresa comenta com outros amigos que graças a sua amiga Boemia Gerente do LostBank aplicou no Fundo Del que tem rentabilidade muito superior a outras aplicações.
Várias pessoas procuram o banco e aplicam seus recursos, outros procuram a loja de carros do Pedro e compram carro financiado, a GrandKoisa financia muitos carros e gera muitos recebíveis que serão comprados pelo banco para compor a carteira do Fundo de Investimento. E assim a roda gira.
Dois anos depois vários clientes incluindo o seu Jose procuram Pedro em sua loja de veículos para negociar aquela compra de carro. Como perdeu o emprego e ainda restam 48 prestações de R$ 450,00 , (R$ 21.600,00 ) Jose fica desesperado pois não tem com o que pagar e o saldo devedor é muito superior ao valor atual do seu carro R$ 10.000,00.
O comerciante fala para os seus clientes que ele não tem nada a ver com isso e que o melhor a fazer é procurar a financeira.
José que é um dos clientes liga para a GrandKoisa e como já está com prestações em atraso é orientado a falar com a empresa de cobrança contratada pela financeira.
Surge mais um participante da operação, o escritório de advocacia Naum Quero Saber, ele é atendido por um assistente do escritório e fica estarrecido com a explicação; "Sr. Zé veja bem, o melhor a fazer é devolver o carro para a financeira, daí vamos colocar o carro a venda em um leilão, ele provavelmente será negociado por menos do que o seu valor de mercado. Depois descontamos os custos da operação, taxa do leiloeiro, despesas do escritório de advocacia e outras. No final das contas vamos abater o resultado do seu saldo devedor".
Meu Deus, exclama José, e em dinheiro o que vai dar isso?
A sua dívida está em R$ 21.600,00, fora taxas e correções, menos o valor aproximado da venda no leilão do seu carro por R$ 7.000,00, menos despesas, no final o senhor ainda deve ficar devendo uns R$ 15.000,00.
Olhando a sua volta Jose percebe que tem muita gente com senha na mão esperando para falar com alguém da empresa de cobrança. Lembra que na loja algumas pessoas estavam esperando para falar com Pedro.
Nessa altura o que já estava ruim fica ainda pior, a Financeira GrandKoisa percebe um grande aumento no número de inadimplentes e com a redução dos prazos de financiamento, está fazendo bem menos do que nos anos anteriores. O Fundo Del Poço observa um grande número de inadimplentes e não consegue substituir tantos títulos e sua carteira que estão com problemas.
A rentabilidade do fundo não é boa.
Os jornais estampam a notícia que o preço do carro usado esta caindo muito e rápido, os pátios das lojas estão cheios, as empresas de leilão estão a todo vapor, empresas de cobrança acionam os mecanismos de busca e apreensão, financeiras em campanha tentando caçar novos clientes.
Com a grande oferta de carro novo, carro usado e carros a preços baixos sendo leiloados, o preço tende a cair.
Os clientes do fundo começam a notar que a rentabilidade piorou e procuram explicações com a gerente Boemia, ela pede ajuda ao pessoal da área de investimentos do banco. A explicação é simples, compramos uma carteira de recebíveis, os títulos não estão sendo honrados e a substituição na carteira não acontece por falta de novos títulos, alguns cotistas estão sacando, os custos de taxa de administração e outros do fundo continuam os mesmos. A coisa tá feia.
Agora o prejuízo não é somente das montadoras, revendas, financeiras é também dos cotistas que aplicaram seus recursos nesses fundos de recebíveis com garantia de prestação de carro "usado".
Essa é a grande bolha brasileira, a recessão traz desemprego, o aperto monetário, a falta de crédito faz com que a economia não ande como nos áureos tempos, e com isso a inadimplência atinge índices jamais vistos.
Esperamos que esses acontecimentos nunca aconteçam, mas acontece que a trajetória que fizemos até o presente momento é de colisão, sinto muito.
Altemir C. Farinhas
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Crise - A Bolha Brasileira
domingo, 16 de novembro de 2008
Por uma Sociedade Justa e Eficiente
No primeiro ano de faculdade aprendi um truque que muito me auxiliou na hora de obter notas melhores. Descobri que, numa prova na qual cai um tema que você não estudou, que o pegou de surpresa, sobre um assunto de que você não sabe absolutamente nada, o melhor é não entregá-la em branco, que seria a coisa mais lógica e correta a fazer. Nessas horas, escreva sempre alguma coisa, preencha o papel com abobrinhas, pois quanto maior o número de páginas, melhor. Isso porque existem dois tipos de professor no Brasil: um deles é formado pelos que corrigem de acordo com o que é certo e errado. São geralmente professores de engenharia, produção, direito, matemática, recursos humanos e administração. Escrever que dois mais dois podem ser três ou doze, dependendo “da interpretação lógica do seu contexto histórico desconstruído das forças inerentes”, não comove esse tipo de professor. Ele dá nota dependendo do resultado, e fim de papo.
Mas, para a minha alegria, e agora também a sua, existe outro tipo de professor, mais humano e mais socialmente engajado, que dá nota segundo o critério de esforço despendido pelo aluno e não apenas pelo resultado. Se você escreveu dez páginas e disse coisas interessantes, mesmo que não pertinentes ao tema, ficou as duas horas da prova até o fim, mostrou esforço, ganhará uns pontinhos, digamos uma nota 3 ou até um 3,5. O que pode ser a sua salvação. Na próxima prova você só precisará tirar um 6,5 para compensar, e não uma impossível nota 10. Se você estudar um mínimo e usar esse truque, vai tirar um 5.
Uma vez formados, os alunos desse tipo de professor são muito fáceis de identificar. Seus textos são permeados de abobrinhas e mais abobrinhas, cheios de platitudes e chavões. Defendem que a renda deve ser distribuída pelo esforço, e não pelo resultado, e que toda criança que compete deve ganhar uma medalha. Defendem que todo professor de universidade deve ganhar o mesmo salário, independentemente da qualidade das aulas, e que a solução para a educação é mais e mais verbas do governo, sem nenhuma avaliação de desempenho.
Esses dois tipos de professor obviamente não se bicam. É a famosa briga da turma da filosofia contra a turma da engenharia. São as duas grandes visões políticas do mundo, é a diferença entre administração pública e privada. O que é mais justo, remunerar pelo esforço de cada um ou pelos resultados alcançados? O que é mais correto, remunerar pela obediência e cumprimento de horário ou pelas realizações efetivas com que cada um contribuiu para a sociedade?
Como o Brasil ainda não resolveu essa questão, não podemos discutir o próximo passo, que são as injustiças da opção feita. É justo só remunerar pelo resultado? É justo remunerar somente pelo esforço? Podemos até escolher um meio-termo, mas qual será a ênfase que daremos na educação dos nossos filhos e na avaliação de nossos trabalhadores? Ao esforço ou ao resultado?
Quem tentou ser útil à sociedade mas fracassou teria direito a uma “renda mínima”? É justo dar 3,5 àqueles cujo esforço foi justamente enganar seus professores e o “sistema”? Não seria justo dar-lhes um sonoro zero? Precisamos optar por uma sociedade justa ou uma sociedade eficiente, ou podemos ter ambas?
Como aluno, eu tive de me esforçar muito mais para as provas daqueles professores carrascos, que avaliavam resultados, do que para as provas dos professores mais bonzinhos. Quero agradecer publicamente aos professores “carrascos” pela postura ética que adotaram, apesar das nossas amargas críticas na época. Agora entendo por que tantos de nossos cientistas e professores pertencem à Academia de Letras, por que somos o último país do mundo em termos de patentes, por que tantos brasileiros recebem sem contribuir absolutamente nada para a sociedade e por que nossos políticos falam e falam e não realizam nada.
Que sociedade é mais justa, aquela que valoriza as boas intenções e o esforço ou aquela que valoriza os resultados? Uma boa pergunta para começar a discutir no retorno às aulas.
Stephen Kanitz é formado pela Harvard Business School (www.kanitz.com.br)
Mas, para a minha alegria, e agora também a sua, existe outro tipo de professor, mais humano e mais socialmente engajado, que dá nota segundo o critério de esforço despendido pelo aluno e não apenas pelo resultado. Se você escreveu dez páginas e disse coisas interessantes, mesmo que não pertinentes ao tema, ficou as duas horas da prova até o fim, mostrou esforço, ganhará uns pontinhos, digamos uma nota 3 ou até um 3,5. O que pode ser a sua salvação. Na próxima prova você só precisará tirar um 6,5 para compensar, e não uma impossível nota 10. Se você estudar um mínimo e usar esse truque, vai tirar um 5.
Uma vez formados, os alunos desse tipo de professor são muito fáceis de identificar. Seus textos são permeados de abobrinhas e mais abobrinhas, cheios de platitudes e chavões. Defendem que a renda deve ser distribuída pelo esforço, e não pelo resultado, e que toda criança que compete deve ganhar uma medalha. Defendem que todo professor de universidade deve ganhar o mesmo salário, independentemente da qualidade das aulas, e que a solução para a educação é mais e mais verbas do governo, sem nenhuma avaliação de desempenho.
Esses dois tipos de professor obviamente não se bicam. É a famosa briga da turma da filosofia contra a turma da engenharia. São as duas grandes visões políticas do mundo, é a diferença entre administração pública e privada. O que é mais justo, remunerar pelo esforço de cada um ou pelos resultados alcançados? O que é mais correto, remunerar pela obediência e cumprimento de horário ou pelas realizações efetivas com que cada um contribuiu para a sociedade?
Como o Brasil ainda não resolveu essa questão, não podemos discutir o próximo passo, que são as injustiças da opção feita. É justo só remunerar pelo resultado? É justo remunerar somente pelo esforço? Podemos até escolher um meio-termo, mas qual será a ênfase que daremos na educação dos nossos filhos e na avaliação de nossos trabalhadores? Ao esforço ou ao resultado?
Quem tentou ser útil à sociedade mas fracassou teria direito a uma “renda mínima”? É justo dar 3,5 àqueles cujo esforço foi justamente enganar seus professores e o “sistema”? Não seria justo dar-lhes um sonoro zero? Precisamos optar por uma sociedade justa ou uma sociedade eficiente, ou podemos ter ambas?
Como aluno, eu tive de me esforçar muito mais para as provas daqueles professores carrascos, que avaliavam resultados, do que para as provas dos professores mais bonzinhos. Quero agradecer publicamente aos professores “carrascos” pela postura ética que adotaram, apesar das nossas amargas críticas na época. Agora entendo por que tantos de nossos cientistas e professores pertencem à Academia de Letras, por que somos o último país do mundo em termos de patentes, por que tantos brasileiros recebem sem contribuir absolutamente nada para a sociedade e por que nossos políticos falam e falam e não realizam nada.
Que sociedade é mais justa, aquela que valoriza as boas intenções e o esforço ou aquela que valoriza os resultados? Uma boa pergunta para começar a discutir no retorno às aulas.
Stephen Kanitz é formado pela Harvard Business School (www.kanitz.com.br)
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